Atadas

Alerta de gatilho: abuso sexual

Me preparava pra um encontro quando recebi uma ligação de minha mãe.

– Que linda, filha! Que cê vai fazer? – me perguntou ao me ver arrumada. Seus olhos carregavam uma tristeza distinta que, tivesse prestado mais atenção assim que atendi à video chamada, reconheceria. Mas não foi necessário muito mais que um minuto para notar que algo estranho rolava.

– Que que foi, mãe? Tá tudo bem? – perguntei e a indagação fez um choro profundo vir à tona. Daqueles que é antigo, lá do fim do peito.

Dos cinco aos dez anos de idade, minha mãe sofreu abusos sexuais. Eu já sabia e tinha por volta dos 14 quando ela me compartilhou a informação pela primeira vez. Fez como quem falava uma fofoca, um boato ou um detalhe sobre a vida alheia e não como se aquele crime grave tivesse ocorrido com ela. Naquele segundo, tudo na existência de minha mãe passou a fazer sentido. Era o detalhe importante que encaixava várias peças do quebra-cabeças caótico que formam quem me deu a vida. Fiquei confusa. O que ela tinha me contado era de uma gravidade altíssima, sabia, mas eu ainda não tinha idade, nem informações suficientes para lhe dizer qualquer frase que lhe promovesse algum tipo de acolhimento e aquilo ficou num drive mental que foi acessado muitas vezes durante a minha vida. Mais tarde, acho que aos 17, ela me contou quem cometia a violência, mas foi só ali, enquanto me arrumava prum jantar romântico, já na minha vida adulta, aos 32 anos, que conversamos sobre os episódios abertamente.

Enquanto ela desabafava sobre aquele trauma horrendo, me lembrei que minha mãe sempre teve muito medo de que algo parecido acontecesse com suas filhas e desde muito cedo, tomou medidas que me deixavam assustada e ansiosa. Um dia, por exemplo, estávamos saindo para uma consulta médica quando eu disse alguma coisa que fez todo seu sistema de segurança soar um alarme mental. Pra ser sincera, não me lembro o que falei e só dei relevância ao momento quando minha mãe encostou a mim e a minha irmã em um canto entre o portão e a rua, puxou nossos shorts e calcinhas para baixo e com uma agressividade que, naquele segundo, eu não poderia compreender, me perguntou seguidas vezes se alguém já tinha tocado meu sexo. Se algum homem, não importava qual – da família ou não – tinha tentado ou tocado minha vagina.

– Alguém mexeu com você aqui? Te tocou? – Ela vasculhava minha roupa íntima atrás de sangue – Alguém fez algo que você não queria, Carol? Me fala! – repetia a pergunta em looping e só parou quando gritei uma resposta negativa. Eu tinha uns oito anos. Não nos deixava ir à casa das colegas de escola, recebíamos todas as meninas em nossa casa sob a sua supervisão quando crianças e só passamos a frequentar às casas alheias já mais velhas.

Pra ajudar, minha mãe teve QUATRO filhas. Sim, somos em quatro mulheres e, muito embora na infância estejamos todos mais vulneráveis a esse tipo de violência independente do nosso sexo, o mundo trata de transformar as meninas em presas negando o direito ao nosso próprio corpo logo cedo. Já nascemos objetificadas.

O homem que abusou de minha mãe era um namorado da minha avó. Ele se aproveitava do fato de ficar sozinho com a menina, enquanto minha avó ia trabalhar, para molestá-la. Me dá raiva. Não vou mentir, eu sinto uma ponta de ódio da minha avó, apesar de saber que ela não teve culpa em relação ao abuso. Por vezes, não consigo controlar o carrasco interno que tanto repúdio ao pensar que D. Maria saía de casa e deixava minha mãe sozinha com um namorado qualquer, mas tudo ficou muito pior quando soube que, ao tentar receber acolhimento e deter a violência, minha mãe teve que lidar com a descrência dela. Uma ferida enorme que vira e mexe, contamina a relação de ambas e respinga diretamente na minha relação com a minha avó que, quem acompanha meus textos sabe que tem uma importância absurda na minha vida.

– Não sabia que alguém poderia fazer isso com uma criança… – foi o que minha avó me disse a única vez que consegui falar com ela sobre o ocorrido. Não segurei a onda e foi daquelas conversas que te matam um pouco. Me deu pena, o que nunca tinha sentido antes.  Não era culpa dela tampouco. – Como que alguém poderia fazer algo assim com uma criança? Eu não conseguia acreditar… Percebi que o assunto desagradável pra minha avó trazia uma série de sentimentos que a deixavam agitada e que, aos 78 anos e com um histórico de confusão mental grave, não dava pra resgatá-lo, acusá-la, agredi-la ainda mais… Não me restou muito que enterrar a temática me aproveitando da condição de neta. Não de filha.

A minha mãe, não restou muito mais que organizar o que restou após essa violência da maneira que podia. Mas muito me surpreendeu quando percebi culpa em seu discurso, mesmo quarenta anos depois.

– Ele me chamava pra cama… e eu ia, mas eu tinha seis anos… eu não queria, mas eu ia… não sabia o que tava fazendo… – dizia em meio às lágrimas. Culpa. Como se mesmo tão pequena pudesse impedir o que aquele homem fazia com ela. Porque a mesma sociedade hipócrita que falha ao nos proteger, nos enche desse sentimento que nos aprisiona de tantas maneiras e, muitas vezes, impede que a gente busque a denúncia.

Sobre o abusador, o único que sei é que ele era namorado de minha avó materna, por isso tinha acesso à casa e que faz muitos anos morreu. Um desgraçado que não merece ter legado, sequer em um texto como este.

A sociedade brasileira e a obsessão com a novinha

Tinha por volta dos 12 anos quando um homem parou na minha frente e sem nenhuma cerimônia, levantou a camisa e mostrou o pênis ereto em uma rua mais deserta quando eu voltava da escola. Saí correndo. Acho que o momento, me assustou mais pela ousadia dele. Então, ele podia me mostrar o sexo assim… no meio da rua, à luz do dia? Ele podia?

Esse tipo de assédio aconteceu comigo, com muitas amigas e era contado com certa frequência pelas mulheres ao meu redor. Tão frequente que virou piada, desvaziado de símbolo. Contado em roteiro de stand up de tão normal que é. Mas vamos repetir pra ver se a gente começa a desnaturalizar tudo isso: AOS 12 ANOS DE IDADE, VOLTAVA DA ESCOLA, FUI PARADA POR UM HOMEM QUE LEVANTOU A CAMISETA, MOSTROU O SEU PÊNIS ERETO PARA MIM NO MEIO DA RUA. 12 anos.

Você, homem que tá lendo esse texto, cê lembra de quando você tinha 12 anos? Eu me lembro. Gostava de brincar com minhas irmãs, primos e vizinhos de um jogo que inventei que chamava Pânico, por causa do filme. Era um pega-esconde assassino, a gente tinha que se achar e se apunhalar enquanto descobria quem era o criminoso, o detetive, as vítimas… Sexo nem era algo que passava pela minha cabeça, mas foi exatamente nessa época que os abusos começaram a chegar.

A adolescência foi um inferno nesse sentido, e curiosamente, quanto mais velha fico, menos vulnerável me sinto. A sociedade brasielira tem uma verdadeira obsessão com as novinhas.

Lembro que inúmeras vezes, combinávamos com as amigas da escola de voltarmos todas juntas pra casa para evitarmos que fossêmos estupradas quando saissêmos às 18h, já escuro, já noite. Juntas, não poderiam nos estuprar, mas infelizmente, algumas não tiveram a mesma sorte, e mesmo dentro de casa, sofreram abusos de todo tipo. Descobri muitos anos depois, com uns vinte e poucos anos, que uma amiga sofria violência sexual do padrastro quando tinha seus 16 e entendi muito da sua repentina mudança de humor e ânimo na época.

Faz uns dois anos, uma ex-aluna também me procurou para denunciar um ex-colega de trabalho que abusava sexualmente dela e de suas companheiras de sala. Um homem que, na época, deveria ter por volta de seus 23 anos e que abusava de crianças de 10 aos 14 anos em uma das salas de aulas da escola de inglês onde trabalhávamos. Segue impune, provavelmente, ainda dando aulas.

Cada relato como este que chega a meu conhecimento é acompanhado pela certeza de que não fui vítima dessa violência na infância por pura sorte.

Um levantamento do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, feito em 2021, mostrou que dos 18.681 registros, em quase 60% deles, a vítima tinha entre 10 e 17 anos e cerca de 74%, a violação era contra meninas.

Os dados também apontaram que em 8.494 dos casos, a vítima e o suspeito moravam na mesma residência. Outros 3.330 casos aconteceram na casa da vítima e 3.098 na casa do suspeito.

Compartilho esses dados retirados de uma matéria da CNN para constatar o óbvio. O que tem acontecido e acontece desde os anos 70. O que fez com que mulheres de todas as gerações passassem por isso, começando lá com minha mãe e vem se repetindo. E pior, o cenário é desolador. É só dar uma volta em sites de conteúdo adulto para ver a obsessão com o corpo, principalmente, o feminino e cada vez mais jovem, mais magro, mais “vulnerável”.

Não existe esperança.

Os dados que, com certeza, sofrem uma subnotificação tremenda justificam o pânico que minha mãe sentia de que tivéssemos a mesma “sorte” que ela. As meninas seguem pagando o preço de uma sociedade que as objetificam desde pequenas nas músicas, séries, filmes…

A mesma sociedade que diz repudiar esses atos de violência contra seres tão inocentes é a sociedade que molesta, explora, abusa, espanca e escraviza as crianças, que não são nossas. A mesma sociedade que faz o termo “novinha” ser o mais buscado em sites pornôs. A mesma sociedade que obriga as vítimas a conviverem com seus abusadores por anos. Que duvida das vítimas. Que libera os violadores. Que porra de sociedade é essa?

Final do mês passado, junho de 2022, vimos um caso de uma criança de onze anos que foi estuprada e engravidou ganhar repecursão nacional após uma juíza negar que a menina fizesse uso do direito constitucional à realização do aborto. Só ganhou repercussão a nível nacional, porque uma juíza impediu que a meninas recorresse a isso. Nada foi dito sobre o abusador. Segredo de justiça. Nada se sabe sobre esse homem, mas tanto a menina quanto a mãe dela tiveram que lidar com a violência desse ato inúmeras vezes. A frequência que casos como esse acontece no Brasil é assustadora. Agora mesmo, tentado recolher dados para escrever esse artigo, tive que me desviar de muitas notícias de meninas estupradas ainda essa semana.

Não vejo homens denunciando a “cultura do estupro”, não falam disso, como se isso não fosse com eles, mas a sensação que fica é que aqueles que são nossos pais, padrastos, amigos, nossos familiares ou colegas, quando não nos violentam diretamente, estão violentando nossas amigas, vizinhas, filhas, irmãs, chefes. Que o “estuprador” é sempre o outro, mas os números não negam. O que esses homens têm feito para entender que o papo é reto e é com vocês mesmo que a gente tá falando e o bagulho é urgente e é agora que tem que ser dito?

À vitima, acolhimento: a culpa não é sua. Busque ajuda, terapia se possível, fale com alguém de confiança e desconfie de qualquer um que queira fazer com que você se sinta responsável pelo ato de violência que viveu. Você é vítima e merece ser feliz de novo!

À família das vítimas: passou da hora de aprendermos a acolher nossas crianças abusadas. Buscar as ferramentas para fazê-lo.

Não é sobre como nos vestimos, nem sobre onde estávamos ou o que fazíamos, o estupro é total e completamente de responsabilidade de quem o comente, do estuprador, que não é um doente, nem um monstro, se não, um fruto de uma sociedade hipócrita que legitimiza que homens tenham acesso ao nossos corpos quando bem entendam desde que nascemos. E eles absorvem essa ideia rápido… A responsa é desse cara… que de repente, tá até lendo esse texto, mas finge que o assunto não é com ele. Porque tá com o pau tão soterrado no próprio ego que não consegue ver que a violência sexual nada tem a ver com o sexo, prazer ou desejo e sim, com a necessidade de se provar macho a todo custo, e que prefere resolver a sua própria falência moral e mesquinhez afetando a vida de quem não tem nada a ver com a sua enorme insignificância.

A minha mãe: eu te amo, eu te respeito e você não chegou até aqui à toa.

Um comentário em “Atadas

  1. Tudo que você disse é uma realidade dura e cruel que me deixa envergonhado por ser homem, mesmo eu agindo diferente da maioria. Infelizmente temos uma “cultura” absurda de culpabilizar a vítima ao invés do monstro que faz desde o assédio ao estupro físico e por que não dizer psicológico também. Uma sociedade onde muitos homens são abusadores e dizem que fazem por amor, e outros ainda são maníacos sexuais que foram educados assim e não querem ter contato com a realidade. Me incomodo com isso e cada vez mais tento educar meu filho de uma maneira onde o respeito seja a primeira meta dele.

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