Notas Sobre a Morte

Das minhas esquisitices mais recentes, o refletir sobre a morte é a que mais gosto. Compreendi tarde demais, no entanto, que o “morrer” é um assunto non grato pra maioria das pessoas e tive que aprender a esmiuçá-lo sozinha nos meus diálogos mentais. Penso que é analisando a morte e como nós vivenciamos tudo que é relacionado a ela que alcançamos portais importantes sobre a nossa própria existência e evolução e pretendo fazê-lo pelo tempo que der, enquanto for possível e importante.

A questão é que esse é um tema absoluto que não deixa nenhum espaço à relatividade ou restrições. Talvez o único e verdadeiro assunto onde não haja negociações: tudo que é vivo, morre. Não se adapta, nem se sujeita e logo eu que não sou dada ao que é inflexível, resolvi pensar e escrever sobre a morte. Bem feito! O resultado é uma evidente dificuldade em transformar minhas notas e pensamentos sobre Ela em algo belo e poético. Algumas ideias já estão em minha mente por tanto tempo, que começam a virar roupas rasgadas com tanto bater na centrífuga da frustração.

Não sai nada que considere belo. A morte não se curva, sequer, à beleza da poesia. Então vai assim mesmo, um amontoado de pensamentos aleatórios.

Nota 1: O caráter injusto da morte se esconde no impedimento. O choro é de saudade, mas também choramos por todas as nossas versões que morrem ao não serem testemunhadas por quem parte. O morrer e o renascer contínuo que tudo que é vivo… sofre.

A jovem que, por partir cedo demais, não pôde ser tia, tampouco ver o próprio irmão exercendo sua paternidade.

O pai que não soube quais profissões os filhos escolheriam.

Ou o outro pai que não teve tempo de ouvir o desabafo do filho sobre sua sexualidade.

Nota 2: Angústia é não poder morrer em paz.

Nos meus devaneios de depressão, sempre enxerguei a Morte como a solução de qualquer problema. Bastava com qualquer desafio — independente do tamanho — ascender no horizonte que uma vontade imensa de não existir dominava o meu peito. A ideia da morte naquele contexto, depressivo, repito, me acolhia e me acalmava. Me agarrava a essa ideia sem qualquer resquício de culpa: não há sofrimento que seja eterno, uma hora… ele acaba.

Não muito mais do que um século é o tempo pelo qual qualquer pessoa consegue estender a sua vida.

Mas aí… um dia, recebi a ligação da minha irmã mais nova aos prantos. Chorava pela morte de um amigo, 35 anos, infarto fulminante. O que a deixava ainda mais transtornada era o fato de que conversavam horas antes de seu coração deixar de bater e ironicamente, falavam sobre a morte de quem tem alguém em sua completa e total dependência. Pra comer, beber, tomar banho, cagar e se divertir eventualmente…

O medo de que algo assim acontecesse com ele e que deixasse o irmão, que é portador de Paralisia Cerebral Espástica, à deriva vira e mexe sequestrava o seu peito.

Angústia é não poder morrer em paz.

Dizem que é no momento da morte que assistimos os detalhes da nossa vida. Não consigo parar de pensar que aquele homem de 35 anos que teve destino marcado por um fim absurdamente rápido e inesperado, no último segundo de sua existência, ficou preocupado pela vida do próprio irmão que continuaria. Provavelmente, o segundo mais longo de toda a sua vida.

Angústia é não poder morrer em paz.

Um irmão mais novo, com deficiência e agora, sem ninguém da família para ajudá-lo. A mãe faleceu anos antes em uma batalha cansadora contra um câncer de mama. Do pai, nada se sabe. Ficou com a esposa do irmão falecido que, por pura generosidade, cuida dele. Seguiu a vida… porque algumas coisas simplesmente nos acontecem.

Angústia é não poder morrer em paz.

Essa semana pensei muito que os corações de meus pais devem sofrer um pouco com esses pensamentos e me acertou uma vontade de mostrar a eles que eu daria conta do recado quando já não estivessem aqui: cuidei da minha irmã. Passei tempo com ela, até enchendo o saco dela demais. Dei banhos, comida. Troquei fraldas. Escolhi roupas. Talvez, eu não dê conta de fazer o trabalho tão bem quanto minha mãe, mas isso a gente vai resolver depois.

Angústia é não poder morrer em paz.

“Olá, pessoal! Este no vídeo é o Victor, ele é portador de Paralisia Cerebral Espástica (devido a um erro médico), o que torna sua musculatura rígida, dificultando seus movimentos. O Victor se locomove apenas através de sua cadeira de rodas e precisa sempre de alguém para ajudá-lo nas tarefas diárias. Ele perdeu seus pais e vivia com seu único irmão e cunhada, Bianca, porém em outubro de 2021, seu irmão faleceu com um ataque do coração aos 35 anos. Hoje eles vivem com muita dificuldade financeira. Ele não tem quarto e banheiro adaptados para cadeirante, o que facilitaria muito a sua vida. Gostaria muito de poder dar essa alegria a ele. Se puderem ajudar, qualquer quantia é de grande valia. Agradeço. Pix celular: 11 948198348 Nubank. Bianca C. Andrade.”

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