Le Monde

Segundos antes do meu corpo ser arrastado pelo asfalto quente, pensei que ia morrer. Não pela dimensão do tombo em si, mas pelo instante que se estendeu por tempo suficiente e me sugou ao limbo. Àquele “entre-mundos” que dizem que a gente flutua quando está prestes a ver a morte; onde é possível rever, e ponderar, toda a sua vida. Enquanto comia poeira, meu cotovelo era violentamente rasgado e minha existência extracorpórea também sofria uma espécie de esfoliação.

O tour tinha me parecido uma ideia ousada desde o começo: 42 km de descida entre as montanhas e pueblitos que compõem o Valle del Elqui no norte do Chile, mas quis fazê-lo ainda assim, mesmo sem entender muito bem naquele momento o que me motivava.

– ¿Estás bien? – me perguntou o homem que havia encostado o carro para me socorrer. Num ímpeto estranho, respondi que sim com um gesto rápido de cabeça, mas a verdade é que eu queria chorar.


– Sí, todo bien… – respondi ao sentar na estrada reunindo o pouco das forças que ainda tinha. – ¿Todos mis dientes están ahí? – mostrei meu sorriso fragilizado e ele soltou uma gargalhada que me fez questionar se aquela era uma preocupação válida pro momento.


– Sí, tranquila… Todos tus dientes están ahí… pero tu codo se ve remal. – Automaticamente, levei a mão direita ao cotovelo esquerdo e senti os pedaços de minha carne destruída enquanto muito sangue saía da ferida. – No… No…. ¡No metas la mano! ¡Puede infeccionar! Tienes que ir a la puesta médica…


– No… No es necesario… – me levantei e ergui também a bicicleta. Me sentia um pouco tonta, mas ainda assim recusei cuidados: – Paro en una farmacia en el camino y me hacen algo…


– No… ¡Tú codo se ve muy feo! ¡Tienes que ir al hospital! – insistiu preocupado.


– No es necesario… Estoy bien. Sólo caí, pero me siento bien… – diante de minha teimosia, o homem ficou irritado de tal maneira que, num ato que até me fez lembrar minha mãe, fechou o cenho, levantou os dedos e disse: – Tú no puedes ver a tu codo. Está abierto. ¡Tienes que irte al hospital! ¡Tu carne está destrozada! Entra en auto que te llevaré ahora… – Aquilo era uma ordem.

Tudo aconteceu rápido demais e escalou de uma forma que, quando me dei conta, tinha levado dez pontos para fechar a ferida, recebido uma lista de antibióticos e anti-inflamatórios e voltava pra minha casa em Santiago com uma estranha sensação de que, na verdade, não tinha sobrevivido. Não morri. Mas ao pisar no tal limbo que me desalinhou completamente comecei a refletir sobre o que caralhos estava fazendo da minha vida. Não que tivesse vivendo mal, já que receitas sobre o bom-viver não existem, mas saí daquele lugar com a sensação de que caí porque ia na direção errada e só com a bússola interna desregulada, eu voltaria minha atenção ao caminho.

Já havia passado por processo parecido que me tirou de rota quase um ano antes durante o ápice da pandemia de Covid-19. Uma sensação estranha veio à tona ao meu consciente, e em níveis diferentes de intensidade, ambas situações estavam relacionadas com o despertar à minha própria mortalidade.

Uns dias antes de decretarem a quarentena e entrarmos no que chamaríamos de ‘novo normal’, minha então roomie fez uma festa e encheu nossa casa de amigos. Já sabíamos que lá no outro lado do globo, o Covid tinha botado pra fuder matando o que via pela frente, mas no Chile, o último país do mundo, ainda era permitido aproveitar algum tipo de felicidade ao reunir pessoas. Durante aquela noite, um dos convidados pegou uma garrafa de Corona – a cerveja – e de forma bem debochada dançou ‘Rythm of the Night’ da Corona – a cantora -, enquanto alguns riam em um misto de culpa, vergonha e desespero. Menos de uma semana depois, o governo decretou o lockdown e tudo que entendíamos sobre sociabilização ficou barrado em março de 2020 que, olhando hoje, parece ter acontecido há duas décadas. Naquela época, me senti totalmente desorientada, mas acho que só não se sentiu assim quem, infelizmente, morreu.

Foi durante uma ida ao supermercado que entendi a seriedade do que estava rolando. Sem máscara, o segurança não só não permitiu a minha entrada como me deu uma bronca que me deixou constrangida. Voltei pra casa. Mudei de casa. E a partir de então, comecei a explorar aspectos importantes sobre minha vida que me trouxeram até aqui. Minha experiência de quarentena não foi ruim. Não vou mentir, e culpa só sentia quando conversava com pessoas que estavam sofrendo muito. Não via notícias. Não me preocupava sobre política. Ao não conseguir acompanhar o que acontecia no mundo, mergulhei na profundidade de minhas águas internas. Deste poço retirei a pintura, a escrita com mais comprometimento e acima de qualquer coisa: um sentido. Mas aí a vacina chegou. Os estabelecimentos voltaram a abrir, e é como dizem: ‘o uso do cachimbo deixa a boca torta’. Novamente, e sem me dar conta, voltei pra estrada que não tinha sentido ignorando e esquecendo tudo o que a pandemia havia dessoterrado. Aquele tombo, quase no finalzinho de 2021, me forçou a parar e a encarar a bússola novamente.

Não tomei antibióticos, nem anti-inflamatórios, deixei minha pele cicatrizar no tempo dela. À dor, já tinha me acostumado anos antes, não era algo insuportável como ter artrite reumatóide. Então, assimilei o processo de cicatrização da ferida de maneira metafórica. Com o passar dos dias, desinchou. Formou cascas. Tirei pontos. Cicatrizar exige paciência e no fim das contas, notei que cicatrizo bem e rápido. A membrana amarela surgiu exatamente no quarto dia após a queda. A ferida estava seca e o algodão das gases já não ficava ensopado o tempo todo. A sensação de estar sempre úmida se foi. No final da primeira semana, a circulação em volta do grave hematoma passou a exigir desapego e uma alergia aos curativos que o repremiam apareceu como se dissesse “anda, deixa o sangue correr…” fazendo com que o machucado ficasse sempre exposto, ao menos, dentro de casa.

O corpo é sábio. Cíclico como tudo que é divino.

A pele da região afetada ficou diferente, é mais clara se comparada com o resto e uma cicatriz gigantesca atravessa meu novo cotovelo. Engraçado algo ser ‘novo’ e já carregar tanta história.

Um pouco mais de dois meses depois do acidente, voltei à cidade onde ele aconteceu em uma tentativa de reconstruir a história com o local e, finalmente, retornar à estrada com o sentido correto. Logo no começo, percebi que o Valle del Elqui me trazia uma inspiração especial. Escrevi muito aqueles dias e traduzi tudo que já tinha produzido ao espanhol. Em meio às montanhas, aos rios e ao céu mais estrelado que estes olhos acostumados à poluição urbana já puderam testemunhar, encontrei uma paz que nunca tinha experimentado.

Ali, fiz uma oferenda ao Tempo, entreguei minhas orações carregadas de fé e recebi sentido de volta porque é isto que o tempo faz. Se passado, presente e futuro são apenas linhas paralelas acontecendo agora, Carol de 30 anos atrás adora ao Tempo com a coragem de um adulto, a sabedoria de um velho e é por isso que realizo nossos sonhos com a honestidade de uma criança.

Minha ação sob o tempo é grão de areia solto e é no passado, há exatos 30 anos, que nasceram as mariposas.

Feliz aniversário para nós 🖤

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