A Busca

28 de agosto

Esbravejava sozinha em seu quarto. Reclamava das dores, dos remédios, dos filhos, enquanto, irritada, buscava algo no guarda-roupa pela vigésima vez. Botava tudo pra fora só pra organizar de novo. Todos os dias, ela revira, remexe, procura seus pertences numa espécie de busca eterna, na verdade, por sentido. Perdido.

Xingava quem eu não sei, arremessava sentimentos peçonhentos nas paredes e no meio dessa treta com suas sombras, engasgou. O ar se recusava a entrar no pulmão, ainda que ela o puxasse com vontade. No cabo de guerra repentino no qual tinha se metido, o dilema estava posto: precisava de ar, mas era urgente desobstruir a garganta antes.

As palavras que maldizia ao universo tinham atravessado sua traqueia feito ossos de galinha.

D. Maria engasga desde que me entendo por gente. Do nada e por nada. Acho que eu tinha seis anos quando sofreu o segundo AVC e saiu de casa carregada em uma maca. No meio do caminho pra saída, viu que nós olhávamos a cena assustadas e tentou nos acalmar. Com metade do rosto ainda paralisado, falou algo que não entendi muito bem, enquanto me apertava a mão esquerda. Depois daquele dia, sempre teve episódios de graves engasgamentos.

Cresci saindo em disparada para pegar um copo d’água pensando que naqueles instantes quando esgasgava, ela iria morrer. Colocando em termos mais lúdicos, eu via assim: somente um copo d’água poderia salvar minha avó da morte por asfixia no segundo seguinte. Feito toque de mágica; bastava com um gole pra ela voltar a respirar. Nesse desespero que sentia, já tomou todo tipo de conteúdo. “Um dia cê vai até pegar água de PRIVADA pra mim…” foi o que disse quando percebeu a água “suja” com um resto de sopa.

Me irritava e confesso que o desespero da criança foi cedendo o lugar à vergonha quando ela dava pra engasgar em público e depois, à raiva. Com o passar do tempo, percebi que apesar do alerta que me causava, minha avó nunca morreu e já bate trinta anos nessa mesma agonia. Parei de me desesperar, ou demonstrar isso, e agora observo como ela volta ao seu estado normal depois de alguns segundos.

Desta vez, recuperou o ar e gritou um: meu deus, até você me trata feito uma CADELA? E aí engasgou de novo.

Ri.

4 de setembro

Um manto estranho envolveu a existência de minha avó e aquilo me deu a nítida sensação de que ela já tinha vivido demais. O que, eventualmente, a própria confirmava com frases como: “meu deus, por que o Senhor já não me leva?”. Flutuava em uma aura sempre úmida de quem traz em suas cabeças imensas tempestades. Um ser que não reconheço. Cada vez mais rabugenta e reclamona como se quisesse se vingar de todos por já não poder ser feliz.

Passou os últimos dias em um bater de portas infinito, numa eterna busca por algo que não ia mais achar. Participando de diálogos murmurantes consigo. Quando, finalmente, deixa de procurar o objeto que perdeu, logo recomeça a busca por qualquer outra coisa e a jornada parte do zero. Como se no fundo, o que ela tivesse realmente perdido fosse o sentido.

Ressente a velhice pobre. Ainda mais tendo trabalhado tanto desde muito cedo. Armagura ser preta e ter a pele escura. A que ninguém quer ver. A solidão roubou sua lucidez, mas foi gradativamente e bem diante dos meus olhos. Essa injustiça enlouquece.

Só se sente bem nos dias que rondam o vigésimo do mês, quando recebe sua aposentadoria; aí a sua energia muda e Ela vive bem melhor. Como se a sua identidade estivesse conectada ao seu dinheiro, ainda que pouco.

Fora desses dias, só reclama.

Parou aqui ao meu lado puxando assunto. Precisa conversar. Todo mundo precisa. Falou mal de todas as poucas amigas. Uma era pidona, outra safada, outra grossa feito coice de mula. Escutei porque tava engraçado demais.

Ri.

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